segunda-feira, 25 de março de 2019

Movie
Heimat, Edgar Reitz
Prolog: Geschichten aus den Hunsrückdörfern (1981)
Heimat – Eine deutsche Chronik (1984)
Die zweite Heimat – Chronik einer Jugend (1992)
Heimat 3 – Chronik einer Zeitenwende (2004)
Epilog: Heimat-Fragmente – Die Frauen (2006)


Provavelmente um dos mais belos filmes do mundo e um dos mais longos (quase 54 horas de cinema em estado puro)

Heimat é uma palavra alemã, bastante analisada por Heidegger nas suas etimologias poético-ontológicas, que exprime o sentimento de pertencer a um lugar, de ter um cordão umbilical com um sítio do mundo, muito próximo da visão latina do genius loci, cultivada por alguns poetas latinos, poetas da terra. Edgar Reitz fundou com outro realizador que eu considero uma das maiores vozes da cultura alemã, Alexander Kluge, o Institut für Filmgestaltung, marco importante do novo cinema alemão, e foi um dos co-signatários do famoso Oberhausen Manifesto em 1962, cujo moto se aproximava do "Papas Kino ist tot", e que vai constituir a plataforma para o novo cinema alemão, nessa vaga em que é preciso recuar ao expressionismo alemão, para voltar a encontrar tamanho caudal de criatividade e independência. Nessa plataforma têm os pés bem assentes realizadores maiores do cinema e que fazem parte da minha cinemateca pessoal e privada, tais como, Rainer Werner Fassbinder, Werner Herzog, Alexander Kluge, Harun Farocki, Volker Schlöndorff, Helma Sanders-Brahms, Hans-Jürgen Syberberg, Margarethe von Trotta, Wim Wenders e last but not the least, um dos que eu amo mais, Jean-Marie Straub que, num conúbio imenso, passou a ser Straub–Huillet, franceses intrometidos por múltiplas razões neste concerto germânico.
Regressando a Heimat, a minha porta de entrada, foi o Heimat 2, que apanha a década de 60/70 e que, imagine-se, era transmitido pela televisão portuguesa, num canal privado e generalista (bem-haja M.S. Fonseca, a filosofia é a forma de nos resguardarmos de muita coisa!). Como dizia uma amiga minha, germanista pura, eram episódios em eros puro! Mas eram também os tempos dos Baader Meinhof e de uma história violenta que habitava a consciência alemã e vinha como estigma da história das gerações anteriores e desse crescendo capitalista alicerçado numa economia sobre os escombros sociais, políticos da guerra. O que parecia ser um sinal de bem-estar escondia pesadelos por resolver e que desaguavam nas contradições de uma juventude alemã que ainda não se tinha recomposto totalmente dos calafrios da Deutschland que o romantismo, Fichte e Hegel, proclamara como a realização de um espírito que iria auto-devorar-se numa ambição desmedida e megalómana do Absoluto.
Só mais tarde, até porque há muito deixei de ver e ter televisão, vim a ver o Heimat 1, graças ao Goethe Institut, com a sua excelente videoteca e sessões, e, por fim, o terceiro, o prólogo e o pos-fácio.
Como disse Edgar Reitz numa masterclass a que tive o privilégio de assistir, aquando da sua presença no Lisbon-Estoril Festival, Heimat foi o resultado de uma investigação pessoal, de uma arqueologia de uma realidade com muitos sinais visíveis mas muitos outros ocultos, não nas suas palavras, mas na minha interpretação das suas palavras.
Heimat, no seu tecido, não está longe do que Fassbinder fez com o grande romance de Alexander Döblin, Berlin Alexanderplatz. (Já agora, também teve exibição na televisão portuguesa, com direito a umas gravações em cassettes a que tive acesso, antes de o voltar a ver em grande ecrã.)
Ambos rasgam a realidade alemã em múltiplas dimensões e realidades e ambos descem às estranhas catacumbas de uma cultura e de uma sociedade que se tornou refém de si mesma, que se auto-mutilou no que tinha de mais profundo em si!
De certo modo, e para invocar um outro filme marcante, "Hitler, ein Film aus Deutschland", de Hans-Jürgen Syberberg, outro maldito no politicamente correcto dos tempos que correm, (que faz lembrar Thomas Bernhard na Áustria, mas isto é outra história), o que temos é um povo invadido e ocupado antes de invadir e ocupar outros povos.
Regressando a Heimat, que é o mesmo que regressar a esses vínculos invisíveis que atravessam gerações de famílias e terras, a esse encontro em surdina com um passado que se transfigura em pequenos acontecimentos que iluminam o quotidiano da vida das pessoas e que, no laborioso trabalho de pedreiro, erguem uma "casa" onde habitamos e onde se passeiam seres que são vozes que nos dizem a linfa da nossa vida. Nesse pequeno mundo, nesse local de onde somos e aonde somos, há uma ontologia que é tão profunda que nos possui sem o sabermos: Heimat é o segredo de quem segreda a vida ao ouvido dos que nos são próximos, os que amamos, a família, a terra, esse mundo familiar mas tão difícil de entender.
Esse é o mundo que trazemos no coração, um mundo portátil que vai connosco para todos os lados, bagagem invisível de quem viaja à volta de si mesmo e dentro de si mesmo. Edgar Reitz mostrou como podemos abrir as "malas" e ver o que existe dentro delas em pouco mais de dois dias de cinema. Dois dias que são todos os dias dos dias em que vivemos a nossa vida, antes e depois dela!
José

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28/06/17
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