segunda-feira, 25 de março de 2019

Martírio, Vincent Carelli, Ernesto de Carvalho, Tatiana Almeida, 2016, 2h 42m,
Brasil

Vincent Carelli (1953) é um antropólogo, que tem estudado as sociedades indígenas do Brasil, e documentarista franco-brasileiro, criador do importante projecto Vídeo nas Aldeias (1987), que tem como objectivo formar cineastas indígenas.
Os seus documentários têm denunciado as atrocidades cometidas contra os índios, obrigando, por vezes, a atitudes políticas. Se muitos dos seus documentários têm incindido sobre a situação dos índios e sem terra e dos massacres cometidos como é o caso de Corumbiara mostram também aspectos de uma identidade antropológica e cultural, ela também sujeita a um risco de massacre e destruição. Por isso, ele e a sua mulher, a antropóloga Virgínia Valadão, entretanto prematuramente falecida, criaram um dos projectos mais fundamentais para a consciencialização da imagem das tribos indíngenas, no sentido de uma auto-gestão, o projecto Vídeo nas Aldeias (VNA) que utiliza recursos audiovisuais para fortificar a identidade dos povos indígenas e a sua cultura e estes serem donos do seu património imagético e poderem assim, numa época de luta com imagens, responderem com os mesmos meios "às imagens criadas sobre eles".
O seu último documentário, Martírio, exibido no Doc Lisboa, é um regresso após 20 anos aos índios Kaiowá e ao seu já longo conflito e resistência com as instituições governamentais.Os paĩ-tavyterã também conhecidos pelas denominações exonímicas guaranis kaiowás ou caiouás, são um subgrupo contemporâneo dos povos guarani. Sua família linguística é o tupi-guarani. A sua longa história de contacto com os europeus desde o Tratado de Tordesilhas, provocou que acabassem divididos entre o território do Paraguai e o Estado do Mato Grosso do Sul, no Brasil.
Em Outubro de 2012, em Iguatemi, no Mato Grosso do Sul, comunidades de Pyelito kue-Mbarakay, de origem paĩ-tavyterã, escreveram um manifesto e uma carta no qual protestavam contra uma liminar da justiça federal que determinava sua expulsão das margens do rio Hovy. Rezava assim:

“Pedimos ao Governo e à Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas decretar nossa morte coletiva e enterrar nós todos aqui. Pedimos, de uma vez por todas, para decretar nossa extinção/dizimação total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar nossos corpos. Este é o nosso pedido aos juízes federais."

Esta carta gerou um enorme movimento de solidariedade nas redes sociais, obrigando a uma revisão das posições. No entanto, como muito bem mostra o documentário, a situação deles continua periclitante e de todo o seu território pouco mais lhes resta que uma parcela ínfima.
José
Foto
Foto
02/06/18
2 fotos - Ver álbum

Sem comentários: