segunda-feira, 25 de março de 2019

Filme
Double Take, Johan Grimonprez, 2009

Johan Grimonprez é um dos realizadores e artistas mais estimulantes e profundos da actualidade, capaz de nos levar a pensar e a reflectir.
A sua obra constitui um conjunto de ensaios de reflexão incessante, sobre a realidade actual, mostrando o tecido de que é feita, na duplicação e multiplicação de imagens. Todos os meios actuais servem uma estratégia de poder que tem como objectivo gerar uma espécie de submissão imagética a um mundo cada vez mais enclausurado numa dimensão mediada e mediatizada. Os seus filmes são ensaios que denunciam claramente o enredo de que o mundo e as pessoas são "prisioneiras" e abordam, analisam magistralmente esse processo, que vai desde a televisão até ao negócio de armas. O seu último documentário, Shadow World, de 2016 é um documentário que mostra sem mais o negócio da guerra, a corrupção e como as políticas democráticas actuais não são mais do que ficções para encobrir as sombras e os seres sombrios que comandam os destinos de povos eles próprios perdidos em redes de informação e sociais e já incapazes já de "matar o seu duplo" ou de sequer dizer não, basta!
Johan Grimonprez, admirador confesso da obra de Walter Benjamin, é um artista que empreendeu uma viagem enorme e restaura alguma da minha confiança da capacidade da arte ainda conseguir denunciar e anunciar algo para além deste mundo duplo, o do consumismo, assente no seu alter ego, o da destruição.
Quem quiser ver que veja: não custa nada. O seu site é de acesso livre, com os seus livros e filmes abertos nas páginas e imagens que não se escondem na liturgia dos circuitos "anormais de distribuição" .

Double Take parte de um belo e pequeno conto de Jorge Luis Borges, Veinte e cinco de Agosto, 1983, onde Borges, com a mestria habitual, desenvolve a visão do tempo e dos duplos que o tempo instalam na vida de cada um, nessa galeria de espelhos pela qual temos de passar ao longo da nossa vida. Ao mesmo tempo, explora o universo de Alfred Hitchcock, um dos realizadores que mais explorou a sua duplicidade e a duplicidade no cinema, das imagens e da suspeição e suspense das mesmas. A partir daí, Johan Grimonprez constrói um documentário onde realidade política e histórica se mistura com o mestre ilusionista do cinema, Mr Hitchcock, e como o cinema é um jogo de duplos e de takes duplos ou múltiplos. A análise do duplo aqui não é mais do que a análise da identidade e, claro, não se circunscreve à visão romântica do duplo, cultivada por exemplo, pelas narrativas-abismo de Dostoievski e, em particular, o Sósia.

Este take duplo é o duplo da própria realidade, seja a televisão que é um duplo que mata o cinema que é outro duplo da realidade que mata a realidade ou o duplo político do diálogo entre as armas e a televisão, no famoso encontro da cozinha entre Nixon e Khrushchev e que é talvez o diálogo mais espantoso da história política que eu conheço, onde dois duplos cada um de si mesmo descobrem a sua identidade.
Double Take é o mergulho no mundo de duplos em que todos hoje vivemos e em que todos nos tornámos. A televisão é um duplo da realidade que já não é realidade sem a televisão, as redes sociais são duplos da realidade que já não é sem as redes sociais e de facto, todos nos tornámos duplos dos outros e...finalmente de nós próprios.
If you meet your double, you should kill him! A questão é: estás preparado para matar o teu duplo, quando o encontrares?
Ah, mas já o encontraste: és tu, esse eu que só vive por empréstimo e a prestações numa realidade vendida por governos, empresas, bancos, sociedades de informação, negociantes de armas, serviços de informação e manipulação e outras entidades tão obscuras que até é difícil nomeá-las. Como no cinema, o duplo é aquele que substitui a vedeta, a star, nos momentos mais arriscados. E , claro, vendendo-te a ilusão de seres a vedeta, o protagonista preparam-te para a imolação de seres o duplo, aquele que tem que arriscar a vida para que a tua megalómana ficção de vedeta e estrela se mantenha.
Bem-vindo ao mundo dos duplos!
José

Double Take film.jpg
Directed by Johan Grimonprez
Produced by Nicole Gerhards
Emmy Oost
Hanneke M. van der Tas
Denis Vaslin
Written by Johan Grimonprez
Tom McCarthy
Music by Christian Halten
Cinematography Martin Testar
Edited by Dieter Diependaele
Tyler Hubby
Production
company
Zap-o-Matik
Release date
10 February 2009 (Berlinale)
Running time
80 minutes
Country Belgium
Germany
Netherlands
Language English
FotoFotoFotoFotoFotoFotoFoto
19/10/17
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