Treblinka (Tudo volta a acontecer), Sérgio Tréfaut, 2016
TREBLINKA é um filme baseado nas memórias de Chil Rajchman, “Treblinka: a survivor’s memory” (© “Je suis le dernier juif”, Editions des Arènes)
SINOPSE
Rússia, Ucrânia e Polónia: viajamos num comboio fantasma a caminho dos campos de extermínio. Presente? Passado? Futuro? As vozes dos sobreviventes relatam aquilo que não é possível mostrar em imagens. Só é possível imaginar.
«Os vagões tristes levam-me para aquele lugar. Vêm de todas as direções: leste, oeste, norte, sul. De dia e de noite. Os vagões chegam sem parar.»
«Houve um tempo em que também sonhei. Sonhei que este passado nunca mais voltaria. Mas estava enganada. Esse passado está sempre aqui. Até hoje tenho horror a estações de comboio, linhas férreas, vagões. É como se todos os comboios me levassem para Auschwitz, Dachau, Treblinka.»
NOTA DO REALIZADOR
Treblinka é um filme que se foi construindo lentamente, num processo que não tinha um plano pré-estabelecido.
Há cerca de cinco anos escrevi um projecto de documentário sobre uma sobrevivente do Holocausto, Marceline Loridan-Ivens – a viúva de Joris Ivens – enviada aos 13 anos para os campos de Auschwitz-Birkenau. Perdeu o pai em Auschwitz e trabalhou como prisioneira em Birkenau. A experiência marcou-a para toda a vida.
Quando encontrei Marceline pela primeira vez, reconheci e admirei nela a sobrevivente. Muitas das testemunhas do horror absoluto puseram fim à vida enquanto estavam nos campos; muitas outras suicidaram-se depois de regressarem à vida normal.
Inicialmente, eu tinha a intenção de construir um documentário baseado em conversas e focando essencialmente as memórias de pessoas desaparecidas, mortas, que acompanham os sobreviventes ao longo da vida. Como fantasmas.
Marceline costumava dizer: “Odeio comboios, não importa para onde vão”. Ela sentia que todos os comboios se dirigiam para Auschwitz. Numa tentativa de evocar esse lugar impossível entre a vida e a morte, decidi rodar o filme a bordo de comboios de longa distância na Europa do Leste. O conjunto das filmagens realizou-se em três países: Polónia, Rússia e Ucrânia.
Tratando-se do Holocausto, era expectável que todas as filmagens decorressem em comboios polacos ou nos diversos campos que visitei durante a minha pesquisa - Treblinka, Auschwitz, Birkenau, entre outros. Mas o turismo de massas que se apoderou dos centros de memória do Holocausto perturbou-me e levou-me a pensar sobre a banalização do horror absoluto, que poderia ser um equivalente perverso da banalidade do mal, estudada por Hanna Arendt.
Totalmente em contraste com o turismo organizado do Holocausto, estão duas experiências muito fortes que tive ao ler textos importantes sobre os campos da morte: Treblinka : a survivor’s memory, de Chil Rajchman (mal conseguia respirar enquanto lia) e a investigação de Gitte Sereny Into That Darkness, com centenas de horas de entrevistas cruzadas centradas em Frank Stangl, o comandante-chefe de Treblinka.
A leitura desses livros fortaleceu em mim o sentimento de que as palavras podem ser mais fortes que as imagens. Sobretudo hoje, quando as imagens do horror se tornaram tão banais.
Ao mesmo tempo, nestes últimos anos, com a actualidade da guerra na Síria, o lado mais negro da humanidade – em todo o seu horror e indiferença – esteve sempre presente enquanto eu trabalhava neste filme. Creio que viver entre fantasmas é uma experiência partilhada por homens e mulheres de muito diferentes. Todos os que sobreviveram a um massacre: as vítimas dos campos Nazis, mas também os sobreviventes de genocídios no Cambodja, no Ruanda, na Bósnia ou, mais recentemente, na Síria e no Iraque.
Treblinka é um filme de vozes e de corpos nus, a maior parte das vezes reflectidos nas janelas de um comboio. O público pode sentir-se desconfortável com a estética das imagens. Pode parecer contraditório falar do horror utilizando imagens belas. Mas, ao longo da história da arte, a beleza tem sido sempre utilizada para retratar as mais horrendas situações. E é através desta forma de expressão que é possível evocar e reflectir.
Quase todos os textos deste filme são traduções russas das memórias de Chil Rajchman; algumas outras são conversas de que me recordo ter tido com sobreviventes.
«Quem sou eu?» e «Por que continuarei a viver?» são questões repetidas sem fim pelos que resistem.
- Sérgio Tréfaut
com
Kirill Kashlikov
Isabel Ruth
voz feminina
Nina Guerra
acordeonista
Vitaly Koindratenko
imagem
João Ribeiro
som
Miguel Moraes Cabral
som adicional
Olivier Blanc
montagem
Pedro Marques
realização
Sérgio Tréfaut
produção
Catarina Almeida
Sérgio Tréfaut
produção executiva
[Ucrânia] Toy Pictures
Elena Lysenko
correção de cor
Paulo Américo
Bikini
montagem de áudio e misturas
Branko Neskov
Loudness Films
música
Hino da União Soviética
Aleksandr Alexandrov
Oração El Malei Rachamim
por Chief Cantor Shai Abramson
Preludio em mi menor
Dimitriy Shostakovich
interpretado por
Vitaly Koindratenko original
música original
Alfredo Costa Monteiro
uma produção
FAUX
formato
DCP (cor)
duração
61 min.
TREBLINKA é um filme baseado nas memórias de Chil Rajchman, “Treblinka: a survivor’s memory” (© “Je suis le dernier juif”, Editions des Arènes)
SINOPSE
Rússia, Ucrânia e Polónia: viajamos num comboio fantasma a caminho dos campos de extermínio. Presente? Passado? Futuro? As vozes dos sobreviventes relatam aquilo que não é possível mostrar em imagens. Só é possível imaginar.
«Os vagões tristes levam-me para aquele lugar. Vêm de todas as direções: leste, oeste, norte, sul. De dia e de noite. Os vagões chegam sem parar.»
«Houve um tempo em que também sonhei. Sonhei que este passado nunca mais voltaria. Mas estava enganada. Esse passado está sempre aqui. Até hoje tenho horror a estações de comboio, linhas férreas, vagões. É como se todos os comboios me levassem para Auschwitz, Dachau, Treblinka.»
NOTA DO REALIZADOR
Treblinka é um filme que se foi construindo lentamente, num processo que não tinha um plano pré-estabelecido.
Há cerca de cinco anos escrevi um projecto de documentário sobre uma sobrevivente do Holocausto, Marceline Loridan-Ivens – a viúva de Joris Ivens – enviada aos 13 anos para os campos de Auschwitz-Birkenau. Perdeu o pai em Auschwitz e trabalhou como prisioneira em Birkenau. A experiência marcou-a para toda a vida.
Quando encontrei Marceline pela primeira vez, reconheci e admirei nela a sobrevivente. Muitas das testemunhas do horror absoluto puseram fim à vida enquanto estavam nos campos; muitas outras suicidaram-se depois de regressarem à vida normal.
Inicialmente, eu tinha a intenção de construir um documentário baseado em conversas e focando essencialmente as memórias de pessoas desaparecidas, mortas, que acompanham os sobreviventes ao longo da vida. Como fantasmas.
Marceline costumava dizer: “Odeio comboios, não importa para onde vão”. Ela sentia que todos os comboios se dirigiam para Auschwitz. Numa tentativa de evocar esse lugar impossível entre a vida e a morte, decidi rodar o filme a bordo de comboios de longa distância na Europa do Leste. O conjunto das filmagens realizou-se em três países: Polónia, Rússia e Ucrânia.
Tratando-se do Holocausto, era expectável que todas as filmagens decorressem em comboios polacos ou nos diversos campos que visitei durante a minha pesquisa - Treblinka, Auschwitz, Birkenau, entre outros. Mas o turismo de massas que se apoderou dos centros de memória do Holocausto perturbou-me e levou-me a pensar sobre a banalização do horror absoluto, que poderia ser um equivalente perverso da banalidade do mal, estudada por Hanna Arendt.
Totalmente em contraste com o turismo organizado do Holocausto, estão duas experiências muito fortes que tive ao ler textos importantes sobre os campos da morte: Treblinka : a survivor’s memory, de Chil Rajchman (mal conseguia respirar enquanto lia) e a investigação de Gitte Sereny Into That Darkness, com centenas de horas de entrevistas cruzadas centradas em Frank Stangl, o comandante-chefe de Treblinka.
A leitura desses livros fortaleceu em mim o sentimento de que as palavras podem ser mais fortes que as imagens. Sobretudo hoje, quando as imagens do horror se tornaram tão banais.
Ao mesmo tempo, nestes últimos anos, com a actualidade da guerra na Síria, o lado mais negro da humanidade – em todo o seu horror e indiferença – esteve sempre presente enquanto eu trabalhava neste filme. Creio que viver entre fantasmas é uma experiência partilhada por homens e mulheres de muito diferentes. Todos os que sobreviveram a um massacre: as vítimas dos campos Nazis, mas também os sobreviventes de genocídios no Cambodja, no Ruanda, na Bósnia ou, mais recentemente, na Síria e no Iraque.
Treblinka é um filme de vozes e de corpos nus, a maior parte das vezes reflectidos nas janelas de um comboio. O público pode sentir-se desconfortável com a estética das imagens. Pode parecer contraditório falar do horror utilizando imagens belas. Mas, ao longo da história da arte, a beleza tem sido sempre utilizada para retratar as mais horrendas situações. E é através desta forma de expressão que é possível evocar e reflectir.
Quase todos os textos deste filme são traduções russas das memórias de Chil Rajchman; algumas outras são conversas de que me recordo ter tido com sobreviventes.
«Quem sou eu?» e «Por que continuarei a viver?» são questões repetidas sem fim pelos que resistem.
- Sérgio Tréfaut
com
Kirill Kashlikov
Isabel Ruth
voz feminina
Nina Guerra
acordeonista
Vitaly Koindratenko
imagem
João Ribeiro
som
Miguel Moraes Cabral
som adicional
Olivier Blanc
montagem
Pedro Marques
realização
Sérgio Tréfaut
produção
Catarina Almeida
Sérgio Tréfaut
produção executiva
[Ucrânia] Toy Pictures
Elena Lysenko
correção de cor
Paulo Américo
Bikini
montagem de áudio e misturas
Branko Neskov
Loudness Films
música
Hino da União Soviética
Aleksandr Alexandrov
Oração El Malei Rachamim
por Chief Cantor Shai Abramson
Preludio em mi menor
Dimitriy Shostakovich
interpretado por
Vitaly Koindratenko original
música original
Alfredo Costa Monteiro
uma produção
FAUX
formato
DCP (cor)
duração
61 min.
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10/04/18
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