segunda-feira, 25 de março de 2019

Voci nel tempo, Franco Piavoli, 1996

Um dos mais belos filmes do mundo, como alguns mais de Piavoli.

Piavoli é um cavaleiro solitário do cinema. Um dos realizadores menos conhecidos do mundo, quase secreto, mas admirado por Tarkovski, Brakhage, Bertolucci e outros. Realiza e produz sozinho os seus filmes- só tem a ajuda da mulher na montagem- e transporta para eles a sua admirável fotografia, já que foi fotógrafo também. Foi jurista, carreira que abandonou, para se dedicar ao cinema, um pouco por instâncias de um amigo, Silvano Agosti, ele próprio um bom realizador realizador, que o levou a realizar a primeira longa metragem, Il Planeta Azzurro, apresentado em Veneza e que deixou muitos extasiados.
O seu cinema caracteriza-se por uma ausência quase total de diálogos, deixando respirar as imagens, dando som a todos os sons que compõem a vida, numa espécie de ressureição telúrica dos sons da natureza, assim como de algumas vozes e palavras humanas, mas que mal se distinguem desses sons que habitam a água, o vento, os objectos, em suma, toda a realidade.
Nos seus filmes, entre o documentário e a ficção, nessa fronteira onírica, indecisa entre o estar acordado e o estar a sonhar, há uma vida simples que se instala preenchida por rostos, que filma soberbamente, que são eles próprios mapas vivos de um mundo iluminado por pequenos ritmos, por pequenos tempos. O seu cinema é um cinema de pequenos tempos celebrados e iluminados serenamente, nesse diálogo breve, quotidiano entre a vida, a natureza e o ser humano. Um diálogo que não necessita de epopeias ou tragédias, que se limita a desvendar o enigma precário do dia-a-dia, onde as idades humanas e as estações da natureza se misturam, como uma respiração mútua. Não é por acaso que ele vem a realizar um filme com Ermanno Olmi que, com a sua Árvore dos Tamancos, mais um dos mais belos filmes do mundo, também explorou esses ritmos interiores e exteriores da vida.
Como já alguém disse, é espantoso como só agora o seu cinema vem a ser descoberto como um dos maiores do mundo. Mas Franco Piavoli é a negação daquela ideia que o cinema é uma arte de equipa. A sua obra é a prova de que há no cinema algo muito mais importante que a equipa técnica e que na sua solidão poética, se pode dar voz aos silêncios. O seu olhar é o de um filósofo humanista vindo directamente do Renascimento e que nos dá uma teologia iluminada de paganismo da vida e da natureza, num sussurro e frémito suaves de quem vê o tempo a partir de um relógio que não é mecânico nem electrónico, mas simplesmente natural.
Conhecer a sua obra é um imperativo para quem ame o que há de mais contemplativo na arte. Os seus soberbos planos, o trabalho admirável da luz, natural e sem tecnologias, a montagem espantosa, tudo parece ser o vestígio de uma respiração suave na nossa pele, como um dia de sol que como cortinado flutua em frente dos nossos olhos. Franco Piavoli, de que foram feitas pouco retrospectivas até agora, é um segredo que poucos conhecem. Mas é um daqueles realizadores que justificam plena e solarmente a invenção do cinema.
José


Voices Through Time
1996 ‧ Drama/Documentary ‧ 1h 26m
Initial release: August 27, 1996
Director: Franco Piavoli
Screenplay: Franco Piavoli
Cinematography: Franco Piavoli
Editor: Franco Piavoli
Producers: Franco Piavoli, Giannandrea Pecorelli, Laura Cafiero
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09/10/18
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