L' ATALANTE, Jean Vigo, 1934
Série
Provavelmente, um dos mais belos filmes do mundo (2)
Jean Vigo pertence à estirpe dos criadores que o destino arrebatou jovem, o que aumenta a aura romântica em torno deles. Byron, Keats, a família Brontë, Alain Fournier, etc fazem parte dessa imensa e interminável galeria.
Filho de um anarquista catalão- e talvez não tenha havido um anarquismo como o de Espanha!- assassinado na prisão, Jean Vigo é um anarquista poético, herdeiro desse desejo de liberdade sem concessões que é sempre o apelo anarquista, que nenhuma realidade pode satisfazer. Dos seus quatro filmes, o que desde sempre entrou em mim como uma conspiração interior da minha vida, foi o Zéro de Conduite, um filme que devia estar à cabeça e na cabeça de todos os sistemas de ensino do mundo, para nos mostrar como a rebeldia anarquista é o momento triunfal da existência, esse momento em que nos tornamos oficiantes de um espírito dionisíaco que, como bem viu Nietzsche, é a vida mergulhada na sua máscara mais profunda, nesse dançar até morrer.
Foi a influência de Zéro de Conduite que me deu também o IF de LIndsay Anderson (como este filme de espírito puro do Maio de 68 marcou a vida de um pobre provinciano como eu era!), o Les Quatre Cents Coups de Truffaut, criando uma linhagem de filmes por onde perpassa o vento diabólico da liberdade e que nos lembram que um espírito livre é eternamente jovem!
L' Atalante é o filme onde o sonho poético da vida viaja numa barcaça repleta de gatos melómanos, irmãos de um imenso Boudu/Michel Simon, e da estranha música que é o amor.
É nessa barcaça que nos apetece embarcar para sempre, na única redenção possível da vida, a do abraço simples de duas pessoas que se amam. Nesse abraço, está também a frágil saúde de Vigo aquando da filmagem que se agravou substancialmente com as condições da filmagem e o levaram, por fim, à sua morte. Mas há e poderia haver mais belo hino de vida?
NOTAS
1- Um senhor chamado Boris Kaufman. Um imenso director de fotografia!
Irmão dos grandes realizadores Dziga Vertov e Mikhail Kaufman (que familia!), Boris Kaufman disse que trabalhar com Vigo foi o seu "paraíso cinematográfico". Mas este senhor da fotografia deixou-nos também marcas da sua fabulosa mestria em grandes filmes de Elia Kazan como Baby Doll, Splendor in the Grass ou o imenso On The Waterfront. Quem os viu, jamais esquecerá a sua fotografia.
Para além destes, deixou-nos a fotografia de rostos, uma das melhores de sempre, num dos filmes que eu admiro: 12 Angry Men, de Sidney Lumet.
2. Michel Simon. Que poderei dizer deste actor? Somente que Boudu sauvé des eaux é o espírito dos que vivem livremente e que preferem a liberdade da pobreza à escravatura da riqueza. E que a arte de representar, da qual somos todos humildes praticantes, teve em Michel Simon momentos de brilhantismo insuperáveis. Seria maçador mencionar os filmes por onde passou. Direi somente que conseguiu sempre encarnar, nos papéis e na sua vida, uma dimensão "selvagem" da vida como nenhum outro actor. Não tenho dúvidas que Dépardieu lhe segue muitos dos passos, consciente ou inconscientemente.
3. Jacques Prévert
Um pequeno extra. Como um verso de um grande poema, o filme.
música
Lys GAUTY. "Le Chaland qui passe" (Parlami d'amore Mariu) 1933
https://youtu.be/plVsxaOeJWs
L'Atalante
Directed by Jean Vigo
Produced by Jacques-Louis Nounez
Written by Jean Vigo
Albert Riéra
Based on an original scenario by Jean Guinée
Starring Michel Simon
Dita Parlo
Jean Dasté
Music by Maurice Jaubert
Cinematography Boris Kaufman
Edited by Louis Chavance
Initial release: 12 September 1934
Running time
65 minutes (original French release)
89 minutes (restored version)
Country France
Language French
Série
Provavelmente, um dos mais belos filmes do mundo (2)
Jean Vigo pertence à estirpe dos criadores que o destino arrebatou jovem, o que aumenta a aura romântica em torno deles. Byron, Keats, a família Brontë, Alain Fournier, etc fazem parte dessa imensa e interminável galeria.
Filho de um anarquista catalão- e talvez não tenha havido um anarquismo como o de Espanha!- assassinado na prisão, Jean Vigo é um anarquista poético, herdeiro desse desejo de liberdade sem concessões que é sempre o apelo anarquista, que nenhuma realidade pode satisfazer. Dos seus quatro filmes, o que desde sempre entrou em mim como uma conspiração interior da minha vida, foi o Zéro de Conduite, um filme que devia estar à cabeça e na cabeça de todos os sistemas de ensino do mundo, para nos mostrar como a rebeldia anarquista é o momento triunfal da existência, esse momento em que nos tornamos oficiantes de um espírito dionisíaco que, como bem viu Nietzsche, é a vida mergulhada na sua máscara mais profunda, nesse dançar até morrer.
Foi a influência de Zéro de Conduite que me deu também o IF de LIndsay Anderson (como este filme de espírito puro do Maio de 68 marcou a vida de um pobre provinciano como eu era!), o Les Quatre Cents Coups de Truffaut, criando uma linhagem de filmes por onde perpassa o vento diabólico da liberdade e que nos lembram que um espírito livre é eternamente jovem!
L' Atalante é o filme onde o sonho poético da vida viaja numa barcaça repleta de gatos melómanos, irmãos de um imenso Boudu/Michel Simon, e da estranha música que é o amor.
É nessa barcaça que nos apetece embarcar para sempre, na única redenção possível da vida, a do abraço simples de duas pessoas que se amam. Nesse abraço, está também a frágil saúde de Vigo aquando da filmagem que se agravou substancialmente com as condições da filmagem e o levaram, por fim, à sua morte. Mas há e poderia haver mais belo hino de vida?
NOTAS
1- Um senhor chamado Boris Kaufman. Um imenso director de fotografia!
Irmão dos grandes realizadores Dziga Vertov e Mikhail Kaufman (que familia!), Boris Kaufman disse que trabalhar com Vigo foi o seu "paraíso cinematográfico". Mas este senhor da fotografia deixou-nos também marcas da sua fabulosa mestria em grandes filmes de Elia Kazan como Baby Doll, Splendor in the Grass ou o imenso On The Waterfront. Quem os viu, jamais esquecerá a sua fotografia.
Para além destes, deixou-nos a fotografia de rostos, uma das melhores de sempre, num dos filmes que eu admiro: 12 Angry Men, de Sidney Lumet.
2. Michel Simon. Que poderei dizer deste actor? Somente que Boudu sauvé des eaux é o espírito dos que vivem livremente e que preferem a liberdade da pobreza à escravatura da riqueza. E que a arte de representar, da qual somos todos humildes praticantes, teve em Michel Simon momentos de brilhantismo insuperáveis. Seria maçador mencionar os filmes por onde passou. Direi somente que conseguiu sempre encarnar, nos papéis e na sua vida, uma dimensão "selvagem" da vida como nenhum outro actor. Não tenho dúvidas que Dépardieu lhe segue muitos dos passos, consciente ou inconscientemente.
3. Jacques Prévert
Um pequeno extra. Como um verso de um grande poema, o filme.
música
Lys GAUTY. "Le Chaland qui passe" (Parlami d'amore Mariu) 1933
https://youtu.be/plVsxaOeJWs
L'Atalante
Directed by Jean Vigo
Produced by Jacques-Louis Nounez
Written by Jean Vigo
Albert Riéra
Based on an original scenario by Jean Guinée
Starring Michel Simon
Dita Parlo
Jean Dasté
Music by Maurice Jaubert
Cinematography Boris Kaufman
Edited by Louis Chavance
Initial release: 12 September 1934
Running time
65 minutes (original French release)
89 minutes (restored version)
Country France
Language French
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2016-11-15
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