sábado, 16 de fevereiro de 2008

Hou Hsiao-Hsien Três eternidades

De noite em noite, abre-se o coração a um estranho sangrar dos olhos e à última dor. Não é o amor o que há de mais perto da eternidade? Não é a eternidade o longo suicídio do tempo? Ou estaremos assim inertes, no denso silêncio das mãos, corações com dedos, que na sombra se entrelaçam e logo se despedem? Em qual dos tempos cabe o amor? No anoitecer de um comboio perdido e no mistério sereno da espera ou no mutismo cantado de uma voz afónica que vem de todos os tempos ao nosso encontro? Só resta a quem descobre o impossível cantar assim, como se fosse a alma que morresse, como se fosse carpideira do seu próprio cadáver. Ou a apoteose de dois corpos abraçados, mas profundamente estranhos? Não é o amor a maior estranheza da vida, ou mesmo a vida que se estranha a si mesma? Três tempos, três eternidades: dialéctica estranha entre um amor real, mas impossível, o do início do século 20, e um amor irreal e impossível , o do início do século 21. Pelo meio, a a ilusão mediadora de um amor real e possível, o dos anos 60, feito de pequenos encontros e desencontros e de um riso deslumbrante. Um amor que ri e por um momento tudo é possível, mesmo que a realidade nos convoque já a uma separação! E um longo adeus se instala: adeus, diz o tempo à eternidade! Lá longe, na magia muda da noite, tudo ainda é possível para quem leva como única bagagem o seu seu rosto de olhos fechados, encostado ao vento e aos ombros frágeis da dor.